terça-feira, 29 de março de 2011

21


Já pudesse ser assim
Com total suavidade
O que trago dentro em mim
No final tanto degrade
O meu passo diz do fim,
Nega o rumo e na verdade
O que possa em vil motim
Gera a fúria e frágil brade.
Resvalando o que inda possa
Desejar e não ter medo,
A palavra é rude e grossa,
Transformando em desenredo
O que tanto em dor se aposso,
E sem tréguas sigo ledo.

22

Enfrentar o que restasse
Destas tantas noites vãs
E no mundo em desenlace
Coletando novas cãs,
O que possa e não mostrasse
Transferindo nas manhãs
O cenário onde calasse
O meu mundo em tais afãs.
Restam poucas horas; sigo
Meu destino sem temer
O que possa ser perigo
O que tente ser prazer,
No momento onde se ter
É deter-se em desabrigo.

23

Não permita quem se dera
Noutro engodo novamente,
E se a vida fora austera
Sombras trago e nada tente
Desvendar o que me espera,
Ou rondar a velha mente
De quem sabe e destempera
O passado que apresente.
Não vivesse mais um dia
E se pude ser talvez
O que tanto não queria
E deveras não mais vês
O meu mundo em agonia,
Mostra a minha pequenez.

24

Deus permita a caminhada
De tal forma que inda seja
A verdade deste nada
Outra noite sem peleja,
E meu canto em voz velada
O que possa e já dardeja
Expressão tão desolada
Entregando de bandeja.
O medonho ser que sou
O que vendo se restou
No prazer de ser diverso.
Ouso mesmo na esperança
De quem tanto ora se cansa,
Fugidio, eu desconverso.

25


Na manhã de um novo enredo
Temporais após o vento
O desenho aonde cedo
O meu sonho, o pensamento,
Vicejando em desenredo
Pouco a pouco o que ora tento,
Enfrentando este penedo
Já não possa, sentimento.
Resultando do que fomos
Esta luta não se cansa
E o meu mundo em velhos pomos,
Resta aquém desta esperança
Minha história em ermos tomos,
No vazio onde se lança.

26

Na incerteza do que venha
No momento em tal mormaço
O caminho se desdenha
Onde o nada agora traço,
Só restando o que inda tenha
Sem saber deste cansaço.
Tento erguer além da penha
Delirante e duro passo.
Já não fiz do meu momento
Nem sequer o quanto queira
A verdade em desalento,
A palavra derradeira,
Enfrentando que ora enfrento,
Cada sonho, outra ladeira.

27

Mesmo quando a noite caia
Entre sombras, sem a lua,
A maré que inunda a praia
A beleza se cultua,
Mas o quanto se distraia
Traz a sorte seminua,
Esperança além desmaia,
E o vazio continua.
Depois disto nada mais
Do que tanto ainda invisto
Nos anseios desiguais,
E sabendo sempre nisto
O que possam vendavais,
Mesmo em trevas, não desisto.

28

Esperar o que viesse
Sem lutar e sem buscar
A palavra traz na prece
O que possa nos salvar,
Mas o tanto já se esquece
Do caminho a me encontrar
O meu verso ora padece
Desta ausência de lugar.
Nada pude e nem que um dia
Outro rumo se mostrasse
Minha luz não mais traria
Qualquer sonho em desenlace,
O meu mundo em fantasia,
Nada mais, pois me restasse.

29

Versejando sobre o quanto
Jamais pude e não se erguera
No caminho aonde encanto
Demonstrasse a sina em cera
Pouco a pouco me quebranto
E se a vida obedecera
O cenário onde me espanto,
Da verdade eu padecera.
Ousaria ter no olhar
Qualquer brilho reticente,
E pudesse adivinhar
O que a vida também sente,
No momento a desnudar
Entregando corpo e mente.

30

Escarrando sobre o prato
Onde houvera uma iguaria
Real anseio retrato
E jamais me esqueceria,
De viver em raro estrato
Outro sonho em ironia,
Mas o quanto hoje retrato
Com certeza o perderia,
Vagamente a mente vaga
E invadindo qualquer plaga
Aplacando o quanto atroz
Desvendando o que não vinha
A saudade sendo minha,
Ninguém ouve a sua voz.

Nenhum comentário: