sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Súplica

Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.

O meu colo é arrninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!

Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d'astros belos
Pisa o manto real de negras trevas

Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!
Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente...

Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente! ...
Vem para mim,amor...Ai não desprezes

A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!...

Florbela Espanca.

Vivendo a escravidão do amor inválido
que tanto procurara algum espelho,
o corpo ensanguentado, o olhar vermelho,
o mundo se mostrando amargo e pálido,

o todo no vazio, aonde cálido
procura o inútil encanto, vão conselho,
e mesmo incauto e louco me aconselho
algum caminho, enquanto se quis válido.

e rasgo cada verso que eu fizesse,
navalha em minha carne a sacra prece
deixando sempre à mostra a podre entranha

o beijo prenuncia uma mortalha
e o sonho mais audaz já me retalha,
tornando sem valia a minha sanha...

Marcos Loures.

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